A crise e a sociedade

Bom. Vou fugir da temática do blog mais uma vez. Hoje vou falar dessa crise do capitalismo e principalmente o que este sistema significa pra mim. Com certeza falarei algumas bobagens e estou aqui me sujeitando, oficialmente, a tomar esporros doutrinários e intelectuais de quem não concorde com o que eu falar. Sem contar que achei que não fosse postar até a viagem. Mas não “si” agüentei. Esta história surgiu numa discussão de orkut.

Seguinte. A história que vou contar é real, aconteceu com conhecidos distantes. Nomes são reservados.

Era uma vez dois garotos. Nascidos quase no mesmo ano. Pedro e Marco. Pedro, filho de um marceneiro e de uma empregada doméstica. Marco, filho de pai empresário e de uma dondoca qualquer.

Pedro morava no subúrbio, em um barraco de madeira que só não caiu com as enxurradas dos córregos devido ao talento de seu pai com a madeira. Teve uma vida muito difícil, sempre comeu muito mal e sempre viu sua família passar por dificuldades.

Marco, por sua vez, freqüentou as melhores escolas, viveu nas melhores casas, com os melhores carros e com diversos empregados. Freqüentou as festas da alta sociedade, conheceu e fez amizade com gente importante.

Mas falemos do que interessa. Quando a história dos dois quase se toca. Na vida escolar. Pedro por sua condição foi estudar em escola pública. Não que isso seja ruim, estudei a vida toda em escolas deste tipo e passei em um vestibular federal extremamente concorrido. Mas obviamente, e visivelmente existe um déficit de ensino com relação às escolas particulares. Foi um bom aluno, não o melhor, mas dos melhores. Sempre teve muita vontade de aprender, gana, garra de verdade. E isto vale muito. Marco por sua vez freqüentou colégios particulares. Na verdade passou por escolas particulares, porque sempre foi um péssimo aluno, desleixado, desrespeitoso com os professores, arrogante com os colegas. Concluiu com dificuldades o primeiro e o segundo grau, ao contrário de Pedro, que alcançou este objetivo com louvor.

Mas em um já distante tempo atrás, onde não tínhamos Lula nem seu ProUni, Pedro não conseguiu passar em um vestibular. Não tinha dinheiro pra pagar cursinho, nem pra pagar uma faculdade particular. Acabou esta fase de sua vida sem conquistar esse objetivo. Já Marco foi “inserido” em uma universidade particular. Cursou da mesma forma que cursou o segundo grau. Aos trancos e barrancos, aproveitando muito mais o aspecto etílico da faculdade do que conhecimento acadêmico. Formou-se após cinco anos, engenheiro civil.

E aí está a questão. Marco hoje é um profissional de merda. Tem alguns processos por mal-profissionalismo nas costas. Mas por suas conexões da alta sociedade consegue manter seu padrão esbanjador de vida. Conseguiu inclusive alguns cargos públicos com isso. Mas a ironia não é o fato de ver quem nasce em berço bom conseguir subir na vida, nem ver quem nasce em berço de latão se dar mal. A ironia desta história é que hoje, Pedro, melhor aluno, melhor pessoa, mais dedicado, com mais vontade, trabalha como …. PEDREIRO. Nas obras de Marco. Interessante a vida não?

E tudo isso pra dizer algo bem simples. Porque nestas discussões de botequim orkutiana vejo, FREQUENTEMENTE, gente dizendo que no país e no sistema que vivemos basta ter vontade pra subir na vida. Que quem quer e se dedica consegue tudo que quer. E pra mim isso é absurdo. Temos casos de camelôs que subiram na vida. Temos. E são famosos. Mas porque são famosos? Simplesmente porque são bizarros e fogem à regra geral da pirâmide do capitalismo. Onde quem está no topo se apóia em quem está embaixo. Essa é a lógica.

E apesar de ter medo do que possa advir desta crise, se fosse o fim do capitalismo da forma como é hoje, eu ficaria feliz. É inadmissível vermos e aceitarmos a idéia de que pra sermos bem sucedidos, não pra conseguirmos sobreviver mas sim pra termos de fato um cargo de chefia, temos que usar as costas dos outros como escada. E isso não é papinho de comunista, nem de petista (porque ultimamente ser um dos dois é heresia). Não consigo me filiar a nada ultimamente neste aspecto.

A verdade, pra mim que pretensamente acho isto universal, é que não nascemos iguais. Existem pessoas que jamais terão uma oportunidade na vida. E isso me corrói por dentro. Sei que não posso mudar o mundo sozinho, mas se pudesse mudar algo, se pudesse escolher, eu mudaria isso. Porque isso, a desigualdade, é uma das fontes dos maiores problemas que temos no planeta. E eliminando isso teríamos mais uma chance de crescer como povo, como população mundial.

Devaneios de uma mente sem quase nenhum conhecimento de causa pra estar falando isso. Mas devaneios sinceros.

Ao som de Pouca Vogal – Ilex paraguarienses

Te amo bebê! ;@@@@@@@@@@@

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4 Comentários

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4 Respostas para “A crise e a sociedade

  1. Renata Fernanda

    Matheus! Bato palmas. Muito bom o detalhe do ‘camelô’. Sutil e inteligente. Concordo plenamente. Os Pedros do Brasil estão por aí espalhados aos montes. Os Marcos são a massa esmagadora que nos faz sempre estarmos subjugados a essa desigualdade imperativa. É mentiroso esse textinho de que quem quer consegue. Mentira!
    Bato palmas!

  2. E saiu-se muito melhor do que vários economistas e “especialistas” por aí.

    Pessoas iguais ao “Marco” tem aos montes por aí. Boas relações aqui e ali e umas apostas no cassino global. Enriqueceram assim. Não tem nada de especial. São até fúteis e ostentam suas “conquistas” às custas do Pedro. do João. da Maria. do Severino. da Célia. E tantos e tantos que se esforçaram e tinham potencial imenso para desenvolver mas foram impedidos pelas “leis do mercado”.

    Parece mesmo papo de comunista, socialista,PTista, seja lá o que for. Mas até os gurus do neoliberalismo já estão dizendo que algo precisa mudar…

  3. Samantha

    Matheus… parabéns cara…
    como você se expressa bem heim, putz.
    Olha, sem palavras… você disse tudo.
    Desigualdade!
    E enquanto ela existir, e é claro que ela vai existir… o nosso mundinho continuará sendo assim.
    beijão

    Ah, e como foi a viagem?
    Beijo pra Bruna

  4. alemoah

    Faço minhas as suas palavras, Matheus! 😉

    E à Bruna, quero agradecer a passadinha que ela deu no Fraülein e o comentário dela! Muito obrigada e como sempre vocês estão de parabéns por esse maravilhoso blog!

    Boa semana!

    http://frauleinemapuros.wordpress.com

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