Era o dia primeiro de julho de 2006. Vocês lembram o que vocês fizeram durante este dia? Eu lembro.
Naquela madrugada fria meu celular despertava pra acordar alguém que não tinha conseguido dormir. Cumpriu sua obrigação de mostrar o horário pra levantar, mas não pra acordar. 4 horas da manhã. O coração saindo pelo boca, o frio fora das cobertas, o medo do desconhecido.
Entrar no chuveiro foi uma atitude corajosa, mas que eu, até então portador de quase longas madeixas castanhas de cabelo, tive de tomar. Afinal de contas durante o dia de hoje eu não poderia ter um fio de cabelo fora do lugar. A primeira impressão é a que fica certo?
Fiz a barba só pra dizer que fiz. Desde quando um moleque de 18 anos tem barba de verdade? Tem no máximo algo parecido com um bigodinho fino. E o pior, as espinhas. Putz! Fazer a barba naquela época era um convite a que espinhas e cravos eclodissem pela minha cara.
O silêncio aqui em casa era sepulcral. Aliás, em lugar nenhum se ouvia barulho. Não é horário de gente de bem estar fora da cama. Meus cachorros, que na época eram apenas 2, se recusaram a se levantar pra me dar bom dia de tanto frio e sono.
Chamar um táxi e rumar pra rodoviária. Procurar um ônibus que eu nunca tinha pego. Ver gente que eu nunca tinha visto. Embarcar e sentar em um lugar que seria meu companheiro de longas noites e longas manhãs pelos próximos três anos. E quem disse que eu dormia como hoje eu durmo? Sentar em um ônibus e andar nele dez km´s é mortal pro meu sono. Caio dormindo e sonhando rapidinho. Mas não naquele dia.
Saber que só chegaria ao meu destino perto das 11 da manhã não fazia diferença. Olhar pela janela pra ver se eu já não tinha chegado, por um erro do motorista ou por uma informação passada errada, foi minha atividade preferida naquelas 5 horas. As mãos suadas já sem unhas desde os primeiros segundos da viagem seguravam o celular que teve a bateria gasta de tanto ligar procurando pelo relógio.
A chegada triunfal. Bom. Nem tão triunfal assim. Rodoviária vazia. Ninguém me esperando. Mas era parte do plano, estava tudo combinado. Mas se imaginem na minha situação, saltar de um ônibus em uma cidade que tu nunca viu nem em foto, pegar um táxi que tu nunca pegou, mandar ele ir pra um shopping que tu nunca viu e nem sabe onde é, pra encontrar alguém que tu nem sabe se estará lá ou virá ao teu encontro. Tenso.
O Shopping lotado em um sábado de manhã só me deixou mais louco. Cada pessoa que passava ao meu lado podia ser quem eu esperava. Mas nunca era. Eu de mochila com roupas nas costas, sentando num banco, já pensava que tinha feito papel de bobo. Que hoje à noite, quando voltasse pra casa, ia ser motivo de piada pra todo mundo na internet : – O besta que foi enganado.
O telefone toca. Um atraso justificado. Seria isso uma garantia? Não sei. Mas se não fosse eu não iria ao ponto de encontro marcado. Na frente das Lojas Renner, brega não? Me refugiei em outro canto do shopping. Um jogo da Copa do Mundo me distraia por poucos segundos, até eu perceber a minha situação. Meu telefone toca.
- Cade você?
Ela estava lá. A menos de 100 metros de mim. Meus passos rápidos nunca pareceram tão lentos. O tempo é realmente relativo Einstein. O que pra algumas pessoas demorou milésimos de segundo no mesmo momento demorou horas pra mim. Um longo corredor e uma curva. A última curva de uma vida.
Virando aquela esquina pude ver aquele metro e meio de pessoa. Dez passos dela, dez passos meus. Um sorriso nos lábios e os olhos transbordando. Aquele olhar, aquele sorriso, eram o fim de várias coisas. Da minha vida como adolescente abostado. Da vida dela como patricinha baladeira (ela vai adorar ler isso). Da nossa vida de namorados virtuais.
Mas o que veio depois foi um começo. Aquele beijo rápido. Nossos lábios se tocando. Nossos corpos se grudando com uma força inacreditável, mas também com uma sensibilidade tocante. Talvez para as pessoas que pagavam seu crediário nas lojas renner aquilo não fosse nada. Mas pra nós era o mundo.
Ter os planos de almoçar no shopping, conversar, ir pro hotel, pra depois conhecer a família dela foram pro espaço meio segundo depois do beijo.
- Meu pai tá aí fora e vai fazer churrasco pra nós.
Ela me arrasta pelas prateleiras de calcinhas e cintos da Renner, abre a porta do carro.
- Prazer Matheus
- Prazer Luís.
E foi assim. Três anos atrás, exatamente por essa hora, perto das 11 da manhã. Tudo isso teve inicio.
Três anos atrás o primeiro beijo foi dado.
Três anos atrás os primeiros passos foram caminhados.
Três anos atrás eu oficializei um pedido de namoro, que já era mais do que um simples namoro na realidade, em uma fruteira de um mercadinho de esquina.
Três anos atrás minha vida mudou. Quando eu caminhei pra casa hoje tentei lembrar quem eu era antes daquele dia. Sabem que eu já nem sei mais? Eu comecei a existir depois do dia primeiro de julho de 2006. E é só disso que me lembro.
Fica aqui meu parabéns pra nós dois amor. Ambos sabemos que três anos não são nada perto do que ainda temos pra viver. Mas de qualquer forma são passíveis de comemoração. Infelizmente não estamos juntos mas estivemos e comemoramos já.
Obrigado por me tornar no que eu sou. Sei que não é grande coisa mas com certeza quase tudo que tenho de bom eu devo à ti. E é por essas e outras que eu espero melhorar muito do teu lado. Crescer como pessoa e como namorado.
te amo minha vida.
Maths








